terça-feira, 8 de junho de 2010

Berenice



O cacto


Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco nordeste, carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.
Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bonde, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou a cidade de

iluminação e energia: - Era belo, áspero, intratável.

(Manuel Bandeira)




Comecei a notá-la quando seu pai, chegando de uma viagem, deu-lhe um cacto. Uma espécie de miniatura do que havia dentro dela, bem lá no centro do peito, um pouquinho pra esquerda. Berenice foi-se indo, mostrando-me suas faces, tais quantitativamente parecidas com o cacto de mil pontas. Ela gostou do presente e começou a esperar que ele crescesse.
Berenice era encantadora em toda sua simplicidade. Gostava de tomar banhos com relógio, uma forma de contrariar a incredulidade humana, assim se dava por convencida de que todo relógio era realmente à prova d’água. Muito antes de conhecer o quadro de Dali já adorava os relógios, invenção que iludia no controle do tempo, porém preferia aqueles com dois ponteiros, o que a fazia sentir-se parada no tempo.
Gostava dos dias de Lua e Sol, de prender os cabelos, de pintar os lábios com amoras, de andar descalça, de colecionar histórias e palavras. Acreditava que tudo que existia tinha sim uma razão de ser. Era uma criatura muito impressionante, impressionada com o mundo que vi e via.
Algumas vezes Berenice me pareceu um pouco adulta demais, daquela que todos deveriam ser. Na medida em que o cacto foi crescendo, ela me encantava com sua simplicidade de não haver mais problemas. Conheceu todos os quadros de Dali, como também os questionamentos sobre o tempo feitos por Einstein e, não por falta de respeito a esses dois gênios, ignorou todas as teorias e se tornou absoluta sobre seu tempo.
Tenho a impressão que foi nesse momento que Berenice não se estragou mais, foi crescendo sem se tornar totalmente adulta, totalmente humana. Constatou que todas suas teorias estavam certas, soube, então, por que seu pai havia lhe dado aquele cacto. Berenice era dessa forma, um cacto. Aparentemente belo e misterioso, que guarda dentro de si o essencial para a vida, mesmo não o tendo em abundância.
É preciso contar o episódio do florescer do cacto. Muito peculiar, Berenice descobriu que alguns cactos só dão flores depois de oitenta anos de idade. Pela primeira vez sentiu medo. Medo do amor e do tempo, medo de não amar o tanto quanto a vida nos permite. Sentindo isso, Berenice teve que elaborar sua teoria dos espinhos. Tinha espinhos como proteção e não com forma de machucar alguém. Foi assim que Berenice não teve mais medo.
Berenice foi-se indo assim, como se por caminhos errados, meio tortuosos e desconhecidos, elaborando suas teorias e anti-teorias, colecionando amores e mais histórias. Era serena e sempre simples, da maneira que se olhava e via a vida um pouco melhor. Apaixonei-me por Berenice, na sua forma de solucionar problemas, de amar o desconhecido, de ser como o cacto de Bandeira: - ”Era belo, áspero, (e) intratável”.
Berenice era como o findar de um dia, como o cacto que consegue sobreviver com pouca água e muita areia.
Berenice era simples assim.


Lívia Garcia

9 comentários:

  1. às vezes te vejo assim tb: um pouco adulta demais.....
    Espero que tb descubra o segredo de crescer sem se tornar totalmente adulta.....
    Queria conhecer Berenice......
    Muito lindo!!!
    bjos

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  2. Adorei, Berenice também adora relógios!
    Eu sou o maior fã, e acho que a explicação é bem essa: uma falsa impressão, e segurança, de ter o tempo em nossas mãos, sob controle.
    Pena que na maioria das vezes Dali está certo, e ele se esvai sem que percebamos... Só não podemos deixar que com o tempo que se vai também se vá nossa infância, nossa espontaneidade e felicidade. Nada contra a Berenice, mas eu não gosto muito de cultivar cactos! hahaha Isso literalmente!

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  4. Eu realmentee ameei esse, deve ser porque eu realmente consegui entender o que está escrito!!
    Vcs não podem esquecer que eu sou aquela amiga,meio futil de vcs e não entendo muito bem esses textos muito complexos ;)
    olhaaa,mas eu vou me atualizar e melhorar mais o meu senso critico,já que tenho duas amigas que são GRANDES escritoras, tenho que me adequar a isso!!
    explicação para minha ausencia aqui: eu to no mês das minhas ultimas provas ;/ sem tempo pra nada.
    beijoo, até os proximos ;*

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  5. nossa, antes mesmo de terminar já sabia que era da Lívia. incrível. haha, é nada contra a Berenice, mas não gosto muito de cacto, às vezes por dar flores em tão longo tempo e por ser tão amargo por dentro..apesar disso nesse exato momento estou vivendo por situações parecidas.. acho que nós estamos vivendo..
    muito lindo o texto,profundo e reflexivo.
    mas agora um assunto mais nada a ver.. como vcs estão lindas. uau. sabiam que estão mais felizes?! sei lá, às vezes é por que estão sorrindo mais. mas isso é ótimo. que bom que estão bem e o melhor desse 're'encontro foi lembrar de cada momento-simples mas intenso- que nós vivemos juntas.. lembrei do litro de sorvete, algumas confidências, algumas músicas, uns bons textos.. tudo. foi tão pouco, mas tão bom e eu não lembrava de como tinha sido.. sei lá pude perceber que me marcou.. eu adoro vcs, vcs são geniais e sei lá nós pensamos o tal por quê que estamos no curso e talvez essa seja a razão. meus olhos estão marejando.. hahaha, uma descontraçãzinha. esse ano é nosso, a bagaça é nossa, se é que vcs me entendem.. vamos acabar com a raça desses concorrentes... como eu estava com saudades de vcs, se é que é essa a palavra. acho que ainda não encontrei a palavra que realmente define o que eu senti e sinto por vcs! o dente tá lindo, branquinho, certinho; os tropicais estão ficando meio quentes, só falta passar.
    Depois do seu irmão Fernando,que sempre tá aqui dando o maior apoio pra vcs,eu desejo do fundo do coração muuuuuitos sucessos pra vcs nessas três estradas, que sejam todas bem sucedidas.. haha, como médicas, escritoras e é claro manicures nas horas vagas..
    beijo.beijo
    saudadess
    ING

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  6. OI irmã,
    já conhecia esse texto..mas não me canso de lê-lo.
    Ele é simples assim que nem Berê.
    Ixi tô preocupada seus textos estão sempre melhores que os meus hahha.
    beijo.

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  7. A cada dia fico mais surpreendido, pela diversidade de seus temas! Cada um mais interessante que o outro! Isso é muito bom. Embora não seja a planta que eu gostaria de cultivar, mas tem uma importância valiosa e que significa a vida de muitos animais em estuários de areia que em muitas áreas parece sem fim. Em tudo há um lado positivo e isso em cada cérebro se transforma numa visão extraordinária. Parabéns pelo belo texto!!

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  8. oi gemeas!! não me levem a mal, mas na minha cabeça vcs se fundiram e se tornaram uma entidade mítica, tudo culpa do rafael!!
    mas gostaria de falar que achosa seus textos fantásticos!! É incrível o jeito que vcs conseguir fundir as imagens ou pular de uma pra outra sem perder a coerencia e a fluidez!! E, neste texto em especial, achei o máximo como vcs (não sei me referir a vcs no singular, hehe) conseguiram dar à imagem do cacto um sentido tão positivo, tão diferente do que esperaria pra uma planta que vive no deserto cheia de espinhos, sem que isso fosse "artificial"! Parabens!! Leio os textos com gosto, de verdade! Augusto

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  9. Se te gusta, fique à vontade. Leia os textos a gosto, augusto.
    ;)

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