segunda-feira, 31 de maio de 2010

Relicário




Sem que se soubesse. Vamos viver no nordeste.
Ela tinha perdido a hora, ele ia chegar. Foi para fora com os baldes cheios de água escura, a única água que se encontrava por aquelas bandas. Molhou os longos cabelos negros. Era assim que se via o céu ultimamente, meionegro-meioescuro, um encontro que a deixava sempre mais triste.
Estava tudo certo: a comida no fogão, o pano molhado na cama, e os cabelos. Era só esperar um pouco, então ouvia-se o mexer nas panelas, o aroma do cansaço, o barulho do calçado no chão. Ela aperta os olhos como quem pede ajuda. Vamos viver no Nordeste.Ele também deita. Gostava do pano molhado que cotidianamente refrescava seus pés brutos e secos, assim como os cabelos dela, toda noite cobrindo o seu lado da cama. Um mar negro da moça que escolheu.
A vida ali só oferecia fatos, que se repetiam acompanhando todo o alaranjado que queimava o corpo. Aqui faz muito calor. No nordeste faz calor também.
O passado nunca atravessava as colinas velhas. Não se tem lembrança dos pais, familiares ou da terra que nasceu. O casamento resumiu a vida, e o deserto atingiu ainda mais aquelas pupilas solitárias. Não poderia aceitar, a vida é muito mais ardente. Queima tudo, muito.
Mas lá tem brisa.Vamos viver de brisa.
E foi assim entre o de repente e o agora mesmo que ela partiu. Talvez em busca...
Deixarei meu amigos, meus livros. Minha vergonha. Deixarás aqui teu marido. Teu amante. Vamos viver de brisa. Anarina.

Marina Garcia




Fiz este pequeno texto para transformar em palavras aquela que sempre habitava minha imaginação quando lia o poema Brisa de Manuel Bandeira. Conclui que Anarina cabe na metade de uma página mas quase em todo coração.

4 comentários:

  1. Eba, fui o primeiro a comentar, mas não serei o último!
    Lembrem-se que todo artista de sucesso sofreu um bocado antes da fama... Até mesmo os Mamonas tocaram em festivais de bairros em Guarulhos durante vários anos antes da fama! Foi quando de repente um produtor foi em um dos shows e viu que eles tinham talento. Quem sabe quanto tempo vai levar até um editor descobrir o talento de vocês? Ninguém, mas esse talento tem que ser exercitado exaustivamente para que ele não se perca em todo esse coração...
    Um grande beijo Anarina...
    quer dizer aMarina...

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  2. Aí, Fer, falou tudo!!!!
    Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece...E para estarmos prontos demora um pouquinho.
    Mas não desistam, é preciso ter paciência. E se, prá vcs, escrever é um prazer, muitos ainda descobrirão o prazer de ler seus textos!!!!
    Beijinhos

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  3. aaai, que privilégio ler esse texto de novo, agora sem muitas explicações, né?!
    muito lindo e profundo, sem dúvida. desejo muuuitos sucessos e como os mamonas, ou qlqer outro vcs possam atingir não só um blog, mas muuitas pessoas com os seus livros que faço questão de comprá-los AUTOGRAFADOS, oks?!
    haha vcs não tem talento.. é um dom
    beijo beijo

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  4. Oi irmã!
    O texto ficou lindo, mas como não conhecia a imagem adorei mais ainda.
    Esse bailar ao vento de mãos dadas...o mistério de estar sempre só, um pouco acompanhada pelas nuvens.
    Talvez esse imenso relicario tenha sim outra metade.
    "o relicário imenso desse amor...."
    beijos

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