domingo, 26 de setembro de 2010

Dalton

Estavam sentados debaixo da goiabeira. Era um típico domingo com sol, os dois riam. Ela, sentada no colo do avô, segurava a imensa vara de pescar. Ele, com um largo sorriso no rosto, imaginava-se criança. Seus olhos por detrás do óculos apresentavam um brilho de medo, revelaria seu mistério.
A menina sentada no colo do avô não fazia peso, a risada ainda era inocente e vibrante, ela gritava com receio e parecia confusa tal situação:
- Olha vovô, acho que peguei um!
O velho corpo se movimenta habilmente, com uma força incomum. Enfim, conseguiram trazer o primeiro peixe da garotinha para a terra. O animal se debatia na grama enquanto a menina olhava curiosa para o peixinho que parecia tão desesperado.
-Vovô, como o peixinho brilha no sol! Como é colorido... vamos, faça o favor de jogar o peixinho na água!
O velho homem atendeu ao pedido da neta, pelo visto naquela tarde não pescariam nada. O peixinho logo desapareceu nas águas,o velho observava a garota que continuava com olhos fixos no lago. Uma fina chuva começou a colorir o dia, um arco-íris foi pintado no céu, esse era o exato momento...
Estavam embaixo da árvore para que a chuva não os molhasse, o avô tomava coragem para contar, olhou a netinha que apreciava a água caindo, o pescoço  inclinado para ver o arco-íris e a boca levemente aberta pela curiosidade. Em seus olhos notava-se um ar de descoberta.
-Vovô, quem pinta o arco-íris?
O velho soltou uma divertida gargalhada. Como era lindo o seu mundinho! Estava decidido: não contaria nada ainda. Como explicar que não via a cor dos cabelos de fogo ( como sua filha havia contado)? Ou mesmo as sardinhas que cobriam seu rosto e os olhos verdinhos. Como explicar que não via sua beleza ainda infantil, não via a cor de seus vestidinhos,  não percebia a bonequinha que tinha ao seu lado? Como explicar que não via as cores do arco-íris?
- Vamos menina, a chuva parou, vamos! No caminho te conto a estória do arco-íris.
Voltavam para casa. O pôr-do-sol modificava o céu daquela tarde que se apresentava metade cor de sangue e metade preta e branca. A testa do avô estava enrugada, durante os próximos anos provaria para a neta que as fotos sem cor são mais charmosas e não perdem o sentido da imagem( por que a vida perderia?).
Pelo caminho sentia o perfume das flores molhadas , sentia o leve cheiro de goiaba que os cabelos da neta exalavam pelo ar. A menina dormia no seu colo. Com certeza os cabelos eram vermelhos.


Lívia Garcia
(texto 2007)

3 comentários:

  1. hummmm
    esse eu já conhecia.Lembro do Fernado "quase" chorando quando terminou de ler....
    É mesmo vc tem razão, essas coisas colorem a vida.
    A vida que a gente tem nos olhos
    beijinhos da irmã Mar

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  2. Nossa.. eu também não conhecia não.. adorei..!

    Segredinho... Tbm só entendi quando o Fer me explicou .. hehehehehehehehehee

    Adorei Lívia..

    Parabéns!

    :D

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