quinta-feira, 8 de julho de 2010

Aquelas três mulheres do retrato ...





Estou de mudança, resolvi visitar meus pais. Chego ao pequeno apartamento, vejo o velho sentado, muito do jeito dele: com uma perna magra em cima de outra perna mais magra, calça um pouco curta que denuncia as duas canelas sedentas de sol. Fuma seu cigarro, e olha, olha intensamente para o retrato das três mulheres.
Meu pai me ensinou a gostar do retrato, porém com minha mãe ele não conseguiu tal façanha. Lógico, o velho fotógrafo passava horas a olhá-las: três mulheres na varanda, atentas, observando, sentindo a magia dos prédios, todos tão pertos, mas concretamente separados, um sentindo o cheiro do outro, mas desconhecendo que cara que esse outro teria. Olhando aquelas que exalam sensibilidade.
Muitas vezes tentei convencer minha mãe que ele gostava da foto por ter sido a última que tirou antes de aposentar, antes de aparecer o problema no músculo da mão. Mas mamãe sabia que não era só isso.
Lembro o dia que pai estava triste a olhar, e por um momento escutei o único segredo delas:
-O dia que tirei essa foto chovia, elas conversavam na varanda como três boas amigas, riam ás vezes, e o mais importante, observavam a chuva que caia bem perto delas, bem à frente e não as molhava. Uma ama, a outra já amou e a última nem sabe como é amar.
Era meio garoto e não sabia que aquilo era uma confissão. Mas hoje estou de mudança, estou me mudando. Abro a porta e o fotógrafo está lá, porque meu pai foi absorvido pelos pensamentos do profissional.
-O que elas pensam?
-Que você é muito curioso. Mas te digo que hoje elas não estão a pensar, só observam o andar da cidade. Consegue ver? Uma só mulher... três mulheres sós.
-E hoje quem ama mais?
-Sabe que não sei ao certo, acho que uma pode amar um homem, outra ama o momento preguiçoso, e a outra não é amada.
Mas agora, olhando de frente o retrato preto no branco, consigo enxergar algo que naquela primeira confissão não pude notar. A que amava, a da direita, olha para o fotógrafo.

Marina Garcia
Foto: Edward Steichen(texto de 2008)

7 comentários:

  1. Oie,
    Demorei para entender o por que de ser a menina da direita que olha o fotógrafo.E´muito linda a atitude do personagem , ter coragem de mudar.
    Acho legal que nossos textos se completam, No quinto andar foi uma mudança fisica e um pouco emocional. O seu texto aborda com maior propriedade o lado emocional.
    Enfim, a imagem ficou linda!Acho que salva o texto de 2008
    Brincadeira!
    beijocas

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  2. Esse texto me fez lembrar que nós devíamos tirar mais fotos juntos, com aqueles sorrisos típicos para a posteridade, como diria um querido fotógrafo e "camera man" que eu conheço.

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  3. Lindo, mais uma vez, Marina!
    Suas palavras tão bem construídas, tão sabiamente concatenadas me fizeram ter a imagem concreta dessa fotografia aqui comigo. Belíssima foto, por sinal. Adorei o texto, adoro fotos.

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  4. Como vc descreve a velhice tão bem, Marina!
    O que parece detalhe é a pura expressão da velhice: lembrei-me das "canelas sedentas de sol" do meu pai.
    Vou fazer de tudo para ter as minhas bem bronzeadinhas....

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  5. Nossa eu ia elogiar o texto, mas vou ter que elogiar o comentário da Mamys!!!
    Essa familia vou te contar ein, só talentos!!!
    Aproveitando o comentario do Djow, esses dias, ainda em época de copa, estava assistindo a um jogo com a Ju, quando no intervalo aparece um dos repórteres entrevistando brasileiros na porta do estádio. Ele aproveita que algumas pessoas estão tirando fotos da própria entrevista e solta o seguinte comentário:
    "Aqui estão alguns torcedores que, ao mesmo tempo em que são entrevistados tiram fotos para a POSTERIDADE!" hahaha
    A Ju não conseguiu entender o porquê de tanta graça naquele comentário... Hoje ela já compreende! hahaha
    Saudades!!!

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  6. Ai tbm adorei o recado da minha mãe ..depois vcs falam "ai n sei o q comentar"
    mas estão se saindo muito bem
    =***

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  7. marina.. eu acho tão lindo esse seu texto, mas eu ainda preciso de maiores explicações.. ée eu ainda não entendi o lance da mulher da direita, afinal quem era ela? bárbara, lívia ou marina.. eu preciso de mais explicaçoes, afinal não sou eu quem tenho alma de poeta
    hahaha
    beeeeeros

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