domingo, 20 de junho de 2010

Aos tempos de África





E foi entrando assim um senhor bem vestido e bem corrido, numa pressa só.Puxando um garotinho pelo braço.Colocou o garoto no banco, foi em direção à secretária olhou o relógio, cochichou alguma coisa com a moça e apontou para o menino no banco.Depois entrou no consultório médico.
Uma mochila maior que o corpo,óculos grandes para um rosto miúdo, lábios inferiores bem carnudinhos, responsáveis pela boca sempre semi-aberta.Estava ali um observador sozinho.
A criança balançava as perninhas doloridas e os pés inchados dentro dos sapatos.Olhou para o teto branco e com muita luz, achou o lugar iluminado demais, um monte de pessoas em volta lendo, outras que passavam de um lado pro outro, do outro pro lado.Sentiu vontade de ver outra criança,mas ali só tinha gente adulta.Até mesmo se o Gorducha estivesse lá ele acharia bom. Será que papai vai demorar?
Olhou para o lado,viu um homem sério,talvez ele nem quisesse conversar.Decidiu então ficar assim olhando por um tempo, agora mesmo ele puxa conversa.Gente grande não agüenta ver uma criança olhando que arranja logo um assunto qualquer.Mas não foi dessa vez .Acho que ele não estava mesmo afim de conversar.
Parou de olhar e voltou sua atenção às perninhas doloridas.Lembrou do estojo de vinte seis cores que tinha acabado de ganhar .Mexeu na mochila, colocou no colo e abriu com o maior cuidado: um estojo lindo-lindo, capaz de fazer qualquer adulto puxar qualquer assunto.Olhou de canto de olho e o homem continuava ali,intacto.O jeito era ele arranjar assunto.Mas como se começa uma conversa?
As cores no estojo enchiam os olhos,mas por que todas estavam ali existindo?Será que o rosa não gostaria de ser um azul? E o branco que nunca era usado, ele não se sentia sozinho? As perguntas são férteis demais, uma nasce da outra que nasce de outra e de outra e outra. Foi um cutucão no homem sério:
-Moço, por que a cores existem?
-Não sei.
Uma resposta simpática, sentiu confiança no homem.Ele não fez caras estranhas ou respondeu algo bobo.Gente grande tem essa mania de pensar que criança acredita em tudo o que é bobo.Mas o moço era diferente.Dava para fazer mais perguntas:
- Você gosta de ser da sua cor?
- Sim.Você gosta da sua?
-Não sei,talvez.Que foi na sua testa?
-Me machucaram.
-Quem?
-Difícil dizer.Acho que os equivocados.Aqueles que enxergam cores.
-Por que você fala complicado?
-Porque as perguntas são complicadas.Não poderia responder de outra maneira.Mas você me entende?
-Mas sua cor é tão bonita.Você que escolheu?
-Não, não.Minha mãe.
-E como ela fez isso?
-Não sei direito.
-Ela pegou emprestado de alguém? Meu amigo Gorducha nunca me empresta as cores que ele tem.
-Hum ..então ele não é tão seu amigo assim!
-Por que a palma da sua mão é branca?
-Minha mãe decidiu assim.Foi um maneira de mostrar que se quiséssemos seríamos como eles.
-Os equivocados?
Um pequeno sorriso no rosto do homem sério:
-Você é bem esperto, enxerga bem as coisas! Não deveria usar óculos.
O menino achou aquela resposta estranha e boba.Ora, se ele usava óculos era porque nunca tinha enxergado bem .Sentiu um pouco de raiva,detestava quando falavam dos seus óculos.Pensou em parar de conversar,mas a raiva foi tão leve e passageira que ele nem sentiu direito e uma nova pergunta já ia saindo do lábios carnudinhos:
-Como sua mãe chama?
-Todos a chamam de África.
-Já vi esse nome em algum lugar.Ela é conhecida?
-Um pouco,não muito.
-Ela é legal? Minha mãe é um pouco brava.
-Posso?
O adulto pegou um lápis preto, molhou a ponta dele em um copo de água que segurava e fez dois riscos na mão da criança.Dois riscos bem negros.
Se o Gorducha fizesse aquilo ele daria logo um ponta pé naquelas canelas atrevidas.Mas com o homem era diferente.Ficou olhando para palma da mão desejando que ela fosse de outra cor.Abaixou a cabeça e por alguma razão conhecida sentiu vergonha.
-Por que sua pele brilha com a luz? Parece que ela é lisa de tanta cor.
-Não sei, acho que é assim mesmo.
E sem pedir licença passou a mão no braço do homem, como quem toca em uma ferida.O homem tinha razão, o garoto não precisava de óculos, aquilo era sem dúvida uma ferida aberta há anos.
O pai foi saindo com muita pressa. Fechou o estojo do menino pegou na mão da criança e foi andando.Passos largos e estressados:
-Já não te pedi pra não conversar com estranhos?
As perninhas apressadas não entendiam a pergunta.Afinal, aquele homem não era um estranho.De modo algum.

Marina Garcia

13 comentários:

  1. Marina.. que lindo..!!
    Emocionante perceber como os preconceitos crescem com a idade não..?! Parabéns!! Beijos!!

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  2. Ahá! Já estou vendo alguém treinando entrevista para a prova da UNICAMP! hehe E de uma maneira surpreendente, porque não é nada fácil ser adulto e pensar por uma criança, assim como é muito difícil fazer um adulto respondendo de forma inteligente a ela... Adorei o texto! Até o momento o meu preferido. Sem ressentimentos Lívia! :)
    Saudades QUERIDIANAS!!!
    Beijos

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  3. Oi irmã,
    Mesmo você falando que não sabe, eu sei que o Gorducha e bem ruivinho de olhos verdes!
    Adorei o texto, combina mesmo com esses tempos de África que o mundo vive, talvez isso mude daqui a muito tempo....os sapatos continuarão apertando esses pés inchados.
    Beijinhos

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. ooi amoorss, lindo o texto, pra nao variar. o gorducha parece a ingrid quando ela nao emprestava as cores dela=(
    espero que o proximo texto sobre copa a gente ja esteja onde a gente quer estar, e nao vouu nem pensar : ONDE QUE A GENTE VAI ESTAR?, esse pensamento nao deu certo. e voces ja vao ta fazendo super sucesso.
    lindo!!!

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  6. Depois de 5 minutos de bela leitura, só posso dizer que a produção tá cada vez mais linda!
    A Ju tá certa: não só os preconceitos crescem com a idade....
    por isso gosto tanto de ficar com meus "meninos marrons"...
    parabéns!!1

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  7. Marina,

    Achei muito bonito!!! Nesse "frisson" de vestibular você ainda achou tempo de construir esse texto, convidadndo-nos a refletir sobre os conceitos e preconceitos na humanidade?
    abs,

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  8. primeiramente.. samara cala a boca. eu não emprestava pra pessoas como vc que deixava cair, quebrar a ponta e que nunca levava o estojo de cores. hahaha. sorry!
    maaaas, marina.. que lindo, eu me senti dentro da cabeça do menino..que cores são essas que ele está falando, a cor do homem, a sala branca a mãe áfrica. ficou tudo muito subjetivo, mas muito na cara. é como tentar ver a ponta do nariz, sei lá. hahaha
    os textos estão cada vez melhores, uma visão agora de inverno, não de primaveras, se é que vc me entende. mas vc sabe qual é a próxima estação.. haha
    beijo.beijo

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  9. Olá gemeas!! Nossa Marina o texto ficou ótimo!! Vc conseguiu voltar toda sua sensibilidade de escritora p uma questão, paradoxalmente, ainda existente em tempos tão modernos: o preconceito racial.
    beijo amigas.

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  10. Mas eu sei muito bem porque as mãos do moço retinto eram brancas! Ele devia ter falado a verdade pro menino, devia ter explicado que pra ele só tinha dado tempo de molhar as palmas das mãos e as plantas dos pés na cova cheia de água do pezão de Sumé! Tinha ficado por último, depois de Jiguê e Maanape. Aí apenas os pés e as mãos ficaram brancos, mas o resto do corpo ficou com o negrume típico da mãe África e da tribo dos Tapanhumas.
    E é isso. Tem mais não.

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  11. Oie...
    Rafa adorei seu comentário porque meu texto fez vc reler Macunaíma kkkk
    Mas essa ...é Outra história
    beijão

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  12. Hahahaha!
    Eu ia dizer a mesma coisa, Marina!
    O Rafaelzim foi bem fuuundo, no fundo do baú dessa vez.
    Me fez lembarar as aulas do João Leandro, ou seriam as do Ádino?! Enfim, bons tempos esses...ou seriam aqueles?!

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  13. Gente, preciso dizer que eu tb adorei meu comentário! Vc precisa de ver o trabalho que eu tive pra lembrar do trecho e depois ainda relê-lo! Mas me diz aí o que eu não faço por vcs, né, meus amores!?
    Beijo me liga (no tim infinity pré).

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